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PONTO DE VISTA

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As notas taquigráficas comprovavam a veracidade da matéria escrita pelo repórter JB do JB

Jadir olhou para o maço de cigarros e decidiu nunca mais fumar (Pxfuel)

O livro Meandros do Poder, do repórter Jadir Barroso, tem episódios muito interessantes da prática do jornalismo. Um deles fez com que o Jadir parasse definitivamente de fumar, ele que tragava de dois a três maços por dia. Aconteceu quando foi cobrir o depoimento de um diretor da Companhia de Cigarros Souza Cruz na Assembleia Legislativa. O título do capítulo, longo como todos os outros, diz: "Petulância da Souza Cruz levou-me a tomar a decisão irretratável de parar de fumar".

Foi o seguinte: a empresa mantinha uma fábrica no Barro Preto, bairro quase central de Belo Horizonte. Emanava do local uma poluição olfativa e um fumacê que incomodavam a vizinhança e grande parte da cidade. Diante das reclamações da população do bairro, que respirava fumo dia e noite, os deputados resolveram instaurar uma CPI para discutir e, se possível, resolver a questão. Abro aspas para o Jadir, que conta:

"Eu fazia, para o Jornal do Brasil, a cobertura política em Minas e fui acompanhar as atividades da CPI. (...) Um dos convocados a depor foi o diretor da Souza Cruz em Minas, de cujo nome nem me lembro. Esse senhor prestou um longo depoimento e, entre outras preciosidades, disse o seguinte: CIGARRO NÃO FAZ MAL À SAÚDE. PELO CONTRÁRIO, FAZ ATÉ BEM".

Jadir escreveu a matéria focalizando principalmente essa afirmação absurda do diretor da Souza Cruz, feita diante da CPI. Escreveu e, como de costume, mandou o texto via telex para o JB, que no dia seguinte deu grande destaque à matéria. Como o jornal era o principal veículo de comunicação no Brasil, a repercussão foi enorme. O presidente da Souza Cruz, empresa que era a maior contribuinte de impostos do país e um dos maiores anunciantes do jornal, telefonou para o presidente do JB, Nascimento Brito, para dizer que a notícia era "mentirosa, tendenciosa", e estava causando grande problema à empresa. E exigia a demissão imediata do repórter autor da matéria, chamado Jadir Barroso. Nascimento Brito respondeu simplesmente: "O senhor manda na Souza Cruz. No Jornal do Brasil, mando eu", e desligou o telefone.

Mas o repórter foi questionado. A direção do jornal exigiu que comprovasse a veracidade da matéria, porque até então jamais uma notícia da sucursal de Minas tinha sido contestada, e com tal veemência. Que fez então o Jadir? Ele conta:

"Chamei o Waldir, motorista que trabalhava comigo, e nos mandamos para a Assembleia Legislativa, onde procurei o deputado Haroldo Lopes da Costa, presidente da CPI. Expus a ele o problema e perguntei se era possível levantar e mandar traduzir, naquele mesmo dia, as notas taquigráficas da Comissão. Haroldo acionou imediatamente a taquigrafia e eu fiquei esperando. Às 17 horas, estava com as notas taquigráficas na mão. Folheei aquele calhamaço e encontrei o que queria. Lá estava a declaração do diretor da Souza Cruz exatamente como eu havia redigido".

Jadir escreveu a segunda matéria na velha Olivetti e mandou para o Rio com o seguinte título: NOTAS TAQUIGRÁFICAS COMPROVAM DECLARAÇÃO DO DIRETOR DA SOUZA CRUZ". Estava de alma lavada.

Havia sobre a mesa, ao lado da máquina de escrever, três maços de Minister, a marca preferida do Jadir, que olhou para eles e decidiu nunca mais fumar. Pegou os maços, tirou os cigarros, picou cada um em pedacinhos e jogou na lata de lixo. E nunca mais fumou.

No dia seguinte, a matéria saiu em quatro colunas no JB, tal como ele escrevera, além de um editorial em cima da Souza Cruz. Começou ali o processo de desativação da fábrica no Barro Preto. Para quem não sabe, ficava na Avenida Augusto de Lima, ao lado da Igreja de São Sebastião.

*Afonso Barroso é jornalista, redator publicitário e editor

 

 

FONTE: https://domtotal.com/noticia/1468204/2020/08/jeito-diferente-de-cortar-o-cigarro/

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